VIA MEDIEVAL


A VIA MEDIEVAL DE MONDIM A VILAR DE VIANDO

Para a história local, as vias e as pontes assumem-se como fontes de informação por excelência, uma vez que configuram trajetos, que contribuem para a compreensão da organização e ocupação de um determinado território. A necessidade de ligar os aglomerados populacionais, facilitando o transporte de mercadorias e a deslocação das pessoas, motivou o investimento na melhoria das estradas (partindo do princípio que muitas delas poderiam já existir, como simples caminhos, desde tempos anteriores) e na edificação de pontes. Entre os séculos XII e XIV a construção de pontes era considerada uma obra piedosa, pelo que muitos testamentos régios ou de nobres contemplam quantias para que fossem levantadas.

No conjunto das estradas e pontes, de feição antiga, existentes no território de Mondim de Basto, destaca-se a que ligava os centros mais importantes na época medieval (Mondim e Ermelo), via que integrava no seu traçado duas pontes de pedra, monumentais, uma sobre o Cabril e outra sobre o rio Olo. Neste trajeto, assumem especial relevo dois troços da via, que se conservam ainda lajeados, pelo menos em parte com a pedra original, entre o lugar de S. Sebastião, junto à vila (logo abaixo da capela) até à subida para a capela de Santa Luzia, em Vilar de Viando.

Se a questão do valor patrimonial é inquestionável, atendendo à sua monumentalidade e raridade, não apenas a nível municipal mas até regional, impõe-se uma reflexão sobre a sua eventual cronologia e a relação que alguns insistem estabelecer entre esta via e alguns factos marcantes na história nacional, particularmente a investida do general romano, Decimus Iunius Brutus e as Invasões Francesas.

Embora se considere que os métodos e as técnicas de construção de vias e pontes se mantiveram quase inalterados durante séculos, existem particularidades construtivas e arquitectónicas que poderão ajudar a enquadrar a construção, no respectivo período histórico. No caso das pontes, a utilização do arco de volta inteira, a gravação de siglas ou marcas de canteiro no intradorso das aduelas ou no interior dos arcos, os tabuleiros em cavalete ou de piso em dupla rampa, são caraterística de pontes românicas, anteriores ao séc. XIV.

Num trabalho escrito em 1968, que ainda hoje é obra de referência para quem estuda estes temas, Carlos Alberto Ferreira de Almeida[1] elenca algumas das características das calçadas medievais, que as distinguem dos empedrados de vias levados a cabo em época romana. Segundo o autor, as calçadas medievais são construídas com pedras preferencialmente rectangulares, de maiores dimensões, para poderem resistir aos pesados carros de bois que por elas circulavam. O empedrado não tinha qualquer caixa preparatória, a estrada não tinha valetas e o piso não possuía a forma abaulada, para escoamento das águas, como era usual entre os romanos. Por outro lado, enquanto estes evitavam os terrenos baixos, lamacentos, foi aí que os medievais mais investiram na construção de calçadas, porque nesses lugares mais se fazia sentir a sua falta. Além dos troços mais susceptíveis de acumular lama, os medievais empedraram principalmente as zonas de declive, contrariamente aos romanos que construíam calçada contínua.

Apresentados os diversos itens que ajudam à filiação medieval de pontes e calçadas, voltemos à via antiga de ligação de Mondim de Basto a Ermelo com atravessamento do rio Cabril pela ponte de Vilar de Viando. Relativamente à ponte, poderemos destacar os seus paramentos de pedras bem ajustadas (sem vestígios de qualquer exemplar almofadado), o amplo arco já a tender para um ligeiro apontamento, as aduelas estreitas e compridas e o piso em dupla rampa. Embora não existam siglas ou marcas de canteiro (o que acontece na outra ponte da mesma via, a da Várzea, sobre o rio Olo), isso poderá apenas significar ser anterior à segunda metade do século XIII, quando aquela singularidade é mais comum. Quanto à calçada, que se construiu ao longo do rio, numa zona baixa e muito sujeita a alagamentos e acumulação de lamas e na ladeira que sobe para Mondim, por onde escorrem as águas que descem em abundância do Montão, encontramos pedras de feição rectangular e dimensões avantajadas, a ausência de valetas e de abaulamento do seu piso, isto é todas as características de uma estrada medieval.

Na Idade Média o número de vias e pontes é mais abundante quando comparado com o Período Clássico, uma vez que vão surgindo novos núcleos populacionais tornando-se necessário ligá-los entre si. Para o território em análise, não temos evidência arqueológica que sustente a existência de uma via romana, tanto mais que não se conhecem quaisquer assentamentos indiscutivelmente de tal cronologia. Ao contrário, para o período medieval, para além de Mondim e Ermelo, já citados, temos referências documentais para Vilar de Viando, Paradança e outras aglomerações mais chegadas ao Alvão e Marão, as quais necessitavam ser interligadas.

 

[1] Carlos Alberto Ferreira de Almeida, As vias medievais de Entre-Douro-e-Minho, Dissertação de Licenciatura, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1968.


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